Arquivo de Julho de 2008

Tá de noite, madrugada e já comecei escrevendo plagiando o Julio Verne. Acho que é porque vi qualquer coisa na internet falando de um possível filme com histórias dele que será lançado, ou relançado. Não sei.

Já voltei da viagem ao peru faz uma semana e pouco, a rotina diária pouco a pouco vai tomando lugar e as lembranças vào ficando cada vez maiores, enquanto as sensações pouco a pouco vão deixando apenas doces e profundas marcas.

Naquela tarde, após os mágicos episódios de sacksaywaman nos dirigimos a Moray. Um complexo arqueológico interessante com seus vários patamares de agricultura em forma circular e que descem em direção ao centro da terra.

O Universo nos havia reservado um pequeno presente, Pablo, o taxista que nos levava era tamb;em um profundo conhecedor da geografia, história e mitologia local. Ao ver nosso contentamento e as perguntas objetivas de ka resolveu pegar um atalho e passar por uma estrada vicinal, de terra, mas que escondia várias vistas maravilhosas do Vale Sagrado dos Inkas. Passamos por um pedágio local e foi interessante saber como as comunidades de agricultores de organizam no Peru. geralmente cultivam pedaços de terra que sào da comunidade e nòa de um indivíduo apenas, e assim dividem trabalho e produção. Naquele caso específico Pablo dizia que somavam a isso a administração da estrada, que embora de terra estava em muito bom estado. Comentava que se deixassem por conta do governo fazer isso jamais conseguiriam trafegar ou mesmo viver adequadamente.

Eu, interessado no que dizia Pablo, mas só de longe. Meu embevecimento contínuo pelas inúmeras vistas deslumbrantes me deixavam um pouco atônito e meio inexperessivo.

Nos mostrou uma Pacarina, ou local de origem. Um lago com uma quietude e uma presença inigualáveis. embora breve o momento que paramos para tirar fotos, aquele local preencheu alguma parte de meu ser que eu mesmo desconhecia e que vinha sedenta de atenção há milênios.

Muitas curvas e vistas depois chegamos a Moray. Eu havia visto fotos que me deixaram ultra intrigado em relação àquele local, mas minha curiosidade era como uma gota de água no oceano frente a grandeza daqueles patamares de agricultura. Era algo sobrehumano pensar como aqueles patamares foram construídos.

Quando começamos a descida descobri, para maior surpresa, que não era apenas um complexo de patamares concentricos, mas 4 deles. De qualquer forma a tarde avançava e nào teríamos tempo para visitar todos, e portanto nos dirigimos ao principal e maior de todos.

As escadas, formadas de pedras que sobressaiam dos muros, eram interessantes de se descer, e às vezes perigosas por serem muito juntas aos muros.

Quando estávamos no penúltimo patamar antes do centro profundo do local, paramos e nos distanciamos e começamos a emitir mantras e sons guturais. era incrível a acústica local e em alguns minutos começamos a sentir algo mais que o som. Uma espécie de onda circular, como as “olas”feitas pelos torcedores em jogos de futebol, passava por nossos corpos a cada 10 segundos, mais ou menos. mesmo depois que paramos de entoar os mantras continuávamos a sentir “la ola”.

Por fim descemos até o patamar mais baixo. Diferentemente da maioria dos complexos arqueológicos que tem em seus patamares apenas grama, este possuia duas plantações, uma arbustiva e outra rasteira. Achamos interessante e imaginamos como seria lindo se todos os patamares ainda fossem hoje cultivados. depois uma análise mais minuciosa nos mostrou que na verdae quase todos os patamares de Moray eram cultivados, somente que naquele dia eles, à exceçào ultimo, estavam sendo preparados para o plantio.

Ka tinha em sua bolsa folhas de coca. Assim como é feito milhares de vezes por dia em todo o Peru, oferecemos, no centro do patamar, as folhas à Mãe Terra, agradecendo em primeiro lugar, e pedindo força, proteção, coragem e fertilidade e abundância na vida, pois aquele local emanava a prosperidade da vida. Nos abraçamos e nos agradecemos pela bela jornada que estávamos empreendendo e pedimos que todas as pessoas que viriam se juntar a nós no dia seguinte tivessem uma boa e segura viagem e que nossos dias juntos fossem de luz, alegria, cerscimento e aprendizado.

Sentindo-nos felizes sentimos uma presença muito sutil mas ao mesmo tempo muito marcante próximo a nós. Procuramos por pessoas ou animais mas estávamos sozinhos no centro daqueles vastos patamares. E foi então que sentimos que a presença vinha dali de perto, da plantação que estava a poucos metros de nós. Nos aproximamos dos vegetais, já secos e identificamos que era uma plnatação de Quinua, ceral nobre e riquíssimo em vitaminas e substâncias necessárias à vida.

A Plantaçào toda era como se fosse uma única entidade que nos acolhia, nos recebia de braços abertos e extremamente amorosos. Era suave, plena, tranquila e nos preenchia de uma paz alegre e suave. A sensação era que aquelas plantas rosadas e cáqui nos ligavam de modo mais rápido e delicado ao mundo espiritual, à parte interna de cada um de nós. Era como se cada uma daquelas delicadas plantas fosse um templo em si, um templo natural erigido pela Pachamama para levar seus filhos a encontrarem-se nas plantações e porque não quando ingerissem seus frutos. Um alimento para o corpo e um abrigo e veículo para o espírito.

Nos deitamos no meio das plantas e ali ficamos por muito tempo. Mais uma vez sentia aquela inteireza, aquela falta de necessidades que trazia uma união com tudo ao meu redor. não havia fome, frio, sede, calor, pressa ou preguiça. Havia somente estar ali. Pleno, inesgotável, eterno e ainda sim infinitamente mortal e efêmero.

Não é preciso dizer que tamb;em nõa havia qualquer desejo de ir embora, mas sabíamos que nào poderíamos nos delongar. Subimos os andenes, um a um, com extrema delicadeza e calma, presentes da Mama Quínua e chegando no topo vimos o sol se por e a lua cheia se levantar no horizonte oposto. Um momento de puro equilíbrio entre o Sol, a Lua, a Terra e seus Filhos.morai4 - morai visto de cimamorai2 - morai próximo ao centromoraiquinua5 - quinua5moraiallanzito2 - moraiallanzito2

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PERU 2008 - O Puma

Dia seguinte, corpos já cansados e céu nublado pareciam querer nos manter pregados à cama.
Num esforço quase sobrenatural saímos em direção ao Templo da Lua, próximo a sacksaywaman.
Não acreditamos, quando, de longe, em meio ao campo de trigo vimos faixas amarelas em volta do complexo monolítico e trabalhadores do INC, intituto naciona de cultura do peru, trabalhando nas ruínas deste templo.
Ainda esperançosos chegamos, ka e eu, até o templo e nos certificamos que a entrada estava proibida.

Resolvemos então pegar as ruínas do que era a antiga estrada Inka e descermos a encosta até Sacksaywaman.

Eu particularmente andava sem muita vontade de ir até sacksaywaman pois inha primeira impressão do local, dias atrás nào havia sido das melhores. Conhecia lugares de poder fortes e sacksaywaman pelo seu porte mostrara muito mais do que parecia ser de verdade.

Mas como Ka havia insistido muito estava disposto a acompanhá-lo por simples apoio amistoso.

- Não é possível Allan, que você esteja falando da mesma Sacksaywaman que eu conheço. Repetia ele vezes sem fim.

Entramos pelos “fundos” do complexo arqueológico, onde uma série de pedras naturais, não trabalhadas e pequenas grutas existiam.
Depois de andar um pouco encontramos uma “chincana”, gruta com duas entradas, que nao permitia a entrada de luz e que era utilizada para uma espécie de ritual de renascimento, de sair das profundezas da terra novamente à vida.

Muito bem. Vamos nós diretamente ao centro da terra! uhu!

Uhu nada. após dois passos e uma escuridão que podia-se ver mais com os olhos fechados que abertos começamos a morrer de medo e dar vazão a questionamentos se poderíamos nos perder, se existia só um caminho, se tinha bicho papão, etc, etc.

Voltamos dois passos para o velho e conhecido mundo, cheio de luz, mesmo que nublado. Quase sem ar começamos a questionar. Oscilávamos, em questões de segundo entre entrar ou não entrar na caverna.
Por fim, mais uma tentativa.

Andamos desta vez uns quatro passos talvez e tateando no escuro identificamos que existia uma entrada à esquerda, que dava para passar, e que um pouco mais adiante, à direita existia uma espécie de oco, pequeno e junto ao chão, ficamos em dúvida sobre o que fazer, e estávamos ainda sobre o frenesi das dúvidas. O espírito do guerreiro estava abalado e naquelas circunstâncias não tínhamos energia suficiente para aquela jornada. Decidimos abandonar a empreitada e retornamos mais uma vez. desapontados conosco mesmos.

Estávamos decididos a aceitar a derrota quando imediatamente aparece uma mulher com trajes locais, e sua cesta com imagens, colares, gorros e toda a parafernália que vendem para os turistas.

Era muito estranho que no meio do complexo arqueológico víssemos uma vendedora local. Normalmente elas se amontoam na entrada das ruínas, mas dentro das mesmas é quase impossível ver algum vendedor. Esta vinha caminhando confiante, como se soubéssemos que estávamos ali naquele recanto que não podia ser visto de nenhum outro lugar. Nos olhava sorridente e antes que pudesse dizer algo Ka advertiu que ela nao podia estar ali por acaso e que deveríamos conversar com ela.

Ela chegou nos oferecendo uma escultura de pedra na forma de um puma. Sugestivo que a primeira coisa que nos oferecesse fosse justamente o animal que simboliza a fortaleza, a força, a coragem, e um animal que sabe ver no escuro.

perguntamos a ela se ela já havia atravessado a “chincana” e ela confiante disse que sim, que era muito pequena e simples e que nào havia maneira de errar o caminho, deveríamos nos manter à esquerda, sempre tateando a paree e iríamos sair indubtavel e indelévelmente do outro lado.

Sua voz era doce e suave, seu sorriso apesar de largo era confiante, nos incitava a ir adiante.

Senti que deveria comprar seu puma, ele me daria a coragem e a visão para atravessar as profundezas do meu próprio ser e ir adiante no caminho escuro que se abria à minha frente.

Confiante tomei a dianteira. Ka se segurou à minha blusa e seguimos chincana a dentro. Eu era outra pessoa, ou melhor dizendo outro ser. Meus pés se moviam de forma precisa, leve e suave. embora nao visse nada à minha frente meus olhos estavam abertos e minha coluna, arqueada por causa da altura da gruta, estava viva, eriçada, pronta.

Continuei caminhando com total segurança em mim mesmo e alguns metros adiante já podia ser a silhueta das pedras. Alguns passos mais e uma luz no fim do túnel, com perdào do trocadilho. Poucos metros adiante e estava eu e ka no enfiteatro enorme que servia de recepção aos que ultrapassavam a chincana.

Sentíamo-nos fortes, vitoriosos, livres e iluminados pela vida.

Estávamos em silêncio.

Como se uma mola tivesse desatado instantaneamente retornamos à chincana e fizemos o caminho reverso, desta vez parando no meio para sentir a escuridão, fazer as pazes com ela e sentir como se se estivéssemos, e estávamos, no útero da grande mãe terra.

Saímos do outro lado para agradecer à nossa amiga oportuna mas ela nào estava mais lá. Corri para procurá-la e agradecê-la mas ela tinha desaparecido. Subi algumas pedras para vistar ao longe e nõa havia rastros de sua pessoa. Não sabia como iria agradecer a ela a força que nos havia dado naquele momento, e como me sentia bem de ter seguido a intuição de Ka e o incentivo dela.

Rsolvemos passar mais uma vez pela chincana, retornando ao anfiteartro apra de lá seguirmos para novos locais em Sacksaywaman.

Chegando ao outro lado um grupo de turistas aguardava para entrar na chincana. Deviam ser mais ou menos 15 pessoas, norte americanas pela cor de pele e sotaque inglês característico.

Ao passar pela penúltima pessoa ouvi ela dizer: “Isso vai tomar tudo o que eu tenho. não sei se conseguirei.”

Minha reaçào foi imediata, era claro o que eu deveria fazer. Agradecimento à moda xamanica, ou seja, devolver para outra pessoa o beneficio recebido e assim criar uma corrente do bem. Sorri para ela e perguntei diretamente se estava com medo.

Antes que ela respondesse estendi o puma para ela e disse: “eu estava morrendo de medo, e este animal me ajudou a atravessa a escuridào. Ajudará você também. Tome!”

No estilo americano de ser ela respondeu: “Quanto é?”

Sorri para ela e disse que eu era tào turista quanto ela, e antes que seu racional pudesse tomar a dianteira me afastei dizendo para ela ter coragem.

Fomos para o lado oposto do anfiteatro. Ali haviam alguns altares que estavam completamente vazios, e nos parecia muito convidadtivos. Sem dizer uma palavra encontramos lugares apropriados e ficamos em meditaçào por alguns breves minutos, interiorizando a experiência recém adquirida.

Era um local e um tempo de poder, mágicos, plenos.

Após alguns momentos resolvemos ir a outros lugares do complexo e passamos perto da saída da chincana. Há uns 20 metros dali vi uma pessoa abanando as mãos com alguma coisa nelas para mim. Era a turista americana, esatav feliz, radiante, viva. Seu corpo e sua alma brilhavam de alegria. ela gritava algo que depois entendi como sendo “Thank you!, Thank you”! e fazia um sinal de reverência com as mãos juntas, como quando estamos rezando, ou à maneira budista.

Sabia o que ela estava sentindo. Não quis me aproximar para que ela não perdesse o momento com agradecimentos e explicações, e nem quisesse me devolver o puma. Acenei de volta, agradeci ao universo e a ela por ter me dado a oportunidade de retribuir o favor, e mentalmente pedi a ela que passasse aquela coragem adiante.

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