31 Jan, 2009
Meu Amigo e Mestre Samurai
Eram quase 9 horas da noite fresca e quase fria na cidade de São Paulo. Eu deixava o Teatro Anchieta, do SESC Consolação, com os olhos cheios de água e uma impressão mista de contentamento e impotência, diante das atitudes do meu amigo e mestre Samurai.
Nas últimas duas horas havia presenciado um espetáculo fantástico, sobrenatural. Um grupo de oito nobres samurais, 7 deles vindos do Japão e que inevitavelmente me remetiam ao clássico de Kurosawa, os Sete Samurais, e mais um chileno de nascença, brasileiro de residência e japonês de alma.
Apresentaram os diversos aspectos do que é conhecido como Shinto Ryu, arte marcial japonesa que, em torno da figura da espada japonesa, ou katana, engloba dança, poesia, canto, cortes com a espada e movimentos pré-concebidos conhecidos como Kata, com o objetivo de ligar a alma do praticante a Deus, e perpetuar os valores e práticas dos antigos samurais.
A apresentação se iniciou com uma dança samurai feita com leques, conhecida como Shibu, muito bela e dramática que, mesmo sem entender nenhuma palavra do que era dito, pude sentir toda a intensidade de sentimentos ali colocada. E assim eram os samurais, intensos, pois a vida estava literalmente por um fio. A compreensão visceral de que tudo poderia acabar naquele segundo fazia, como diz um velho ditado, com que um samurai executasse em um mês o que uma pessoa normal levaria toda uma vida.
Em seguida uma apresentação dos Kata acompanhada pela gargalhada de uma criança da platéia que se divertia a cada grito, ou kiai, do apresentador nos preencheu de alegria e espanto ao ver um senhor aparentemente em seus 60 anos pular e mover-se como um jovem de 17 e com a precisão de um cirurgião plástico.
Após a apresentação dos Kata o mesmo senhor deu início a uma série de cortes feitos com o katana em maços de palha enrolados e presos a um pedestal. Era incrível a leveza com que a espada passava pelas fibras vegetais separando o maço em dois, três ou quatro pedaços de acordo com a quantidade de cortes executados.
Era a primeira vez que estes samurais, à exceção do Chileno, visitavam o Brasil e esta história começou a pelo menos oitenta anos atrás.
Um imigrante japonês, em 1927 chegava ao Brasil, trazendo além da mala e do coração cheio de esperanças, o grau máximo na arte da espada dentro do estilo Shinto Ryu. Mestre Mitsugui Yoshimatsu havia estudado diretamente com o fundador do estilo, Hibino Raifu, e veio para o Brasil, sem o saber e dentre outras coisas, perpetuar este estilo de luta e este modo de vida.
Mitsugui Yoshimatsu começou, pouco a pouco a forjar espadas de metal e de madeira para treino, sozinho ou com companheiros de pátria, na cidade de São Paulo. E na década de 70 encontraria George Guimarães, o Samurai brasileiro que seria o elo entre o passado e o futuro da espada japonesa.
Como aconteceu com quase todas as artes marciais japonesas, após a segunda guerra mundial o estilo Shinto Ryu sofrera várias alterações para se adaptar a novas regras e legislações do Japão moderno. Porém este estilo se manteve intocado nas mãos de Mitsugui, que no Brasil se encontrava alheio aos detalhes destas mudanças. Assim passou o estilo a muitos discípulos, e George Guimarães foi um dos poucos que também resolveu ensinar a técnica e suas bases filosóficas a outros alunos. Dentre os inúmeros discípulos de George, na Década de 90, sobressaiu-se um chileno que vivia no Brasil, chamado César Ortis.
Quando César chegou ao Japão esperançoso por conhecer os descendentes do estilo e mostrar o que havia aprendido no Brasil com George quase teve um infarto ao saber que o que praticava não era o estilo Shinto ryu, até que alguém mais velho o viu praticando e identificou os movimentos com o estilo antigo, antes da segunda guerra mundial.
O frenesi foi grande de todas as partes e César tornou-se o representante oficial da arte no Brasil. Mas isso é assunto para outra história.
Após cinco anos de intercâmbio técnico, no centenário da Imigração japonesa, os dirigentes japoneses a convite de César vieram ao Brasil para dar seminários e fazerem apresentações públicas de seu estilo.
Na apresentação feita no Sesc Consolação prepararam uma homenagem especial a George Guimarães, por ter preservado o estilo antigo, e por ter ensinado César, que por sua vez uniu novamente o ocidente e o oriente em torno da espada Japonesa.
Prepararam um reconhecimento oficial e um presente, e destinaram o momento alto da apresentação para concretizar esta homenagem a este Samurai brasileiro.
Toda a história foi contada para a platéia e emocionados, tanto César quanto o neto do fundador da Arte, entregaram seus presentes, leram seus discursos, e em troca receberam espadas de madeira feitas pelas mãos do Mestre Yoshimatsu e que haviam sido por ele dadas a George Guimarães no início dos seus mais de 10 anos de convívio.
Porém George não estava lá. Um de seus alunos antigos o representou na cerimônia. Todos estavam tristes por sua ausência, um reconhecimento de pelo menos 40 anos de dedicação a uma arte, onde ele, após a morte de seu mestre e seus demais discípulos era a única fonte ainda pura daquela técnica.
George, nos dias anteriores, estava empolgado com a homenagem, preparou um discurso em Japonês, vestiu sua melhor roupa tradicional japonesa e quando ia saindo de casa sua esposa se sentiu mal, havia acabado de retornar do hospital, e seu quadro requeria cuidados.
Mesmo tendo seis filhos, que poderiam tomar conta dela neste momento, George não hesitou um segundo em ligar para seu aluno Michel e pedir que o mesmo o representasse.
Festas eram excelentes, reconhecimentos ainda melhores, ainda mais nos altos de seus 78 anos de idade. Porém seu amor à sua esposa era muito mais verdadeiro e duradouro do que um reconhecimento público, mesmo que importante. O reconhecimento não mudaria nada que ele fez, faz e fará pela arte. Não havia treinado 40 anos para ser reconhecido. Havia se esforçado por quatro décadas para enfim tornar-se um verdadeiro guerreiro, em todos os momentos da vida, e não apenas naqueles que fossem convenientes.
Em casa, com sua esposa e sua enfermeira, ele cuidou da saúde de sua companheira de jornada e assim, por mais uma das inúmeras vezes meu Amigo e Mestre Samurai me dava mais uma lição prática e verdadeira de Lealdade, Compaixão, Benevolência, Retidão, Sinceridade, Coragem e Honra, os princípios do Caminho do Guerreiro, ou Bushido.