Fev 23rd, 2009
o Mar
O Mar, grande. O céu Infinito. Eu, não mais que um grão de areia.
Mas mesmo assim sentia o sol e a pele.
A areia branca e a água verde. O vento calmo e a esperança num sorriso.
Eu estava no meio dos Deuses.
Inicialmente sentado, como eu pensava que assim podiam estar as divindades de todos os panteões, fiquei apenas respirando. Sentindo cada parte do meu ventre se inflar e contrair. As ondas do mar também assim o faziam. Não sei se me imitavam ou realmente eu tinha nascido no meio dos deuses e com eles aprendera coisas sagradas, como respirar e amar. Desde que nasci respiro a todo instante, e quando o faço de maneira estúpida me uno às maneiras estúpidas, e me torno estúpido e profano.
Mas nesta manhã eu e o Mar respirávamos juntos num ritual tão soberano e simples, da maneira que os soberanos sabem ser simples.
Pouco a pouco, quanto mais me silenciava no movimento do diafragma, senti o Rei Sol, pai de todos os Deuses, invadir meu corpo sem licença. Em um segundo já não respirava mais, era respirado. Já não tinha mais pensamentos, era pensado. Já não tinha corpo, mas me tomava a carne toda a luz e calor que ainda que infinitas me incluíam em sua vastidão.
Eu era luz.
Eternidade ou segundos se passaram. O Tempo, filho de Chronos e portanto neto do meu Sol e de mim haviam ido por um caminho outro que não aquele beira-mar. Eu, novo sol, renascido das cinzas e das areias de Ipanema no Rio de Janeiro, somente brilhava.
Lembrei que tinha olhos e os abri, suave e levemente, só para fecha-los em seguida. Vi centenas de sóis caminhando pela praia, vestidos em carne, braços, pernas e biquínis. Em suas cabeças coroas de luzes de toda a matéria Universal. Eram Deuses caminhando entre os Deuses.
Só haviam se esquecido disto.
É dado aos deuses o poder do esquecimento? Seria uma maldição do Deus dos Deuses? Ou uma tentativa quase inútil de se cegar sem suicídio para a infinita vida que nos ronda e abraça?
Talvez apenas brincadeira dos Deuses.
Levantei meu vestido de carne, porque agora sei que as divindades de todos os panteões permanecem de pé. Um pé na eternidade e outro em algum lugar qualquer que seja agradável.
Lembrei que respirava. Respirei e levei luz aos órgãos, vice reis que transformam luz e ar em vida. Dei ao Rim, senhor da Serenidade uma luz azul brilhante e ao fígado, General de campo, presenteei-o com suaves verdes molhados trazidos da Amazônia. Em seguida entreguei ao Coração luzes vermelhas e apaixonadas. O Coração é um próprio pedaço do Sol morando na Terra. Para o Baço reservei o amarelo divino e brilhante, e por fim entreguei ao rei da Coragem, Senhor Pulmão, o branco da minha pureza recente. Respirei pelos ossos, como se minhas mãos e pés fossem tubos por onde a Luz e o Ar podem se fazer medula, sangue e estrutura.
Guardei todas as minhas forças no caldeirão de meu umbigo e pedi um mate ao vendedor ambulante que me passava à frente. O Deus encarnado, não sei se consciente ou não, apenas sorriu e me disse que eram Dois Reais.
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